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AGROTEC
O projeto TomAC demonstrou que a Agricultura de Conservação//Regenerativa pode aumentar a produtividade e melhorar a sustentabilidade da cultura do tomate para indústria.
Resultados de ensaios realizados na Lezíria de Vila Franca de Xira evidenciam benefícios agronómicos, ambientais e económicos. Apesar do potencial, especialistas apontam desafios na adoção e defendem mais incentivos e adaptação das políticas públicas.
O evento de encerramento do projeto de investigação aplicada ‘TomAC - Produção Sustentável de Tomate para Indústria através da Aplicação dos Princípios da Agricultura de Conservação’ realizou-se no dia 26 de março, no Auditório do Palácio do Infantado, em Samora Correia, com casa cheia.
Os parceiros do consórcio — MED-UÉvora, APOSOLO, Sogepoc, Ag-Innov – Centro de Excelência do Grupo Sugal, e Syngenta — apresentaram a mais de 100 participantes os resultados dos ensaios de campo, realizados numa parcela localizada na Lezíria de Vila Franca de Xira, nas campanhas 2021/2022 e 2023/2024.
Ricardo Vieira Santos, investigador do MED-UÉvora, cujo doutoramento se centrou no TomAC, explicou os resultados obtidos nas três modalidades do ensaio:
• Convencional: monocultura de tomate para indústria, mobilização intensa do solo e solo descoberto durante o inverno;
• TomCober: mobilização apenas na linha de plantação e cultura de cobertura no período de inverno;
• Rotação: mobilização apenas na linha, cultura de cobertura no inverno e rotação bienal de tomate com girassol ou milho.
As conclusões gerais indicam que a cultura de cobertura no inverno reduz o teor de humidade do solo ao longo dessa estação, permitindo antecipar a plantação do tomate na primavera. Além disso, gera mais biomassa — entre 3,1 e 17,5 vezes superior à vegetação espontânea — aumentando a retenção de azoto no solo e reduzindo a lixiviação de nitratos. A retenção de azoto total variou entre 91 e 127 kg N/ha na modalidade com cultura de cobertura, face a 5 a 35 kg N/ha na modalidade com vegetação espontânea.
A rotação de culturas revelou-se a prática-chave para aumentar a produtividade, com um peso de frutos significativamente superior: +34 t/ha em 2021/2022 e +13 t/ha em 2023/2024 face ao sistema convencional.
Observou-se uma tendência para menor crescimento inicial dos tomateiros quando a mobilização do solo é feita apenas na linha, mas sem diferenças no final do ciclo e com qualidade semelhante dos frutos.
A conta de cultura foi superior nas modalidades de Agricultura de Conservação — +456,35 €/ha em 2021/2022 e +987,65 €/ha em 2023/2024 — devido a custos acrescidos com a cultura de cobertura, mobilização na linha e controlo de infestantes. Ainda assim, verifica-se uma tendência para maior receita e melhoria da margem bruta.
Adoção enfrenta entraves e exige mudanças nas políticas públicas
Na sessão de abertura, o presidente do IFAP, Luís Souto Barreiros, destacou que a saúde dos solos e a redução de carbono são prioridades na futura Política Agrícola Comum pós-2027, prevendo incentivos à adoção de práticas sustentáveis.
Em Portugal, na última década, a adesão aos apoios para Agricultura de Conservação em culturas anuais foi reduzida: a área apoiada pela medida ‘Sementeira Direta’ passou de 18.800 hectares, em 2015, para 9.400 hectares, em 2025. “Temos de avaliar a aplicação das medidas para melhor adaptá-las às necessidades dos agricultores”, afirmou.
Gabriela Cruz, presidente da APOSOLO, considera que os incentivos são fundamentais, mas critica as medidas atuais: “a burocracia é elevada, as ajudas são baixas e o compromisso de cinco anos é desajustado às culturas anuais”.
Com mais de 30 anos de experiência, defende que “a agricultura de conservação em tomate para indústria não é fácil, mas o projeto TomAC permitiu adquirir e partilhar conhecimento sobre oportunidades e desafios”.
Marco Nunes, produtor associado da Hortofrutícola de Campelos, sublinhou que “a rotação de culturas é fundamental, mas os benefícios da cobertura do solo só se tornam visíveis ao fim de alguns anos”. Quanto aos apoios, referiu que “os compromissos a cinco anos não se adequam a contratos de arrendamento anuais”.
O projeto demonstrou que é possível aplicar os princípios da Agricultura de Conservação numa cultura transplantada, mas exige adaptação de técnicas, calendários e maquinaria. “É preciso persistência e envolver toda a cadeia de valor”, afirmou Gottlieb Basch, investigador do MED-UÉvora.
Pedro Pinho, da Sogepoc, destacou o carácter disruptivo do projeto: “tirou-nos da zona de conforto e promoveu trabalho conjunto entre academia, produtores e fornecedores (…) acredito piamente nestas práticas pois têm a virtude de aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas no médio e longo prazo”. Ainda assim, admite que a aplicação dos princípios pode não ser possível todos os anos e é uma mudança de paradigma que exige capital.
Ana Casimiro, do Ag-Innov, fez um balanço positivo e revelou a continuidade do projeto numa versão 2.0, em parceria com a Syngenta, incentivando os agricultores a adotar práticas como culturas de cobertura. “Como indústria facultamos um manual de boas práticas aos agricultores visando a agricultura de conservação, consideramos que contribui para a boa sanidade do solo, dando valor acrescentado ao nosso produto final”, afirmou.
Andrea Canzano, responsável de agricultura regenerativa na Syngenta, considera que a agricultura tem um papel a desempenhar na descarbonização da economia europeia e alertou: “temos de pôr os agricultores no centro da questão, pois se eles não tiverem rentabilidade, não atingiremos as metas de descarbonização”.
“Na Syngenta estamos comprometidos em apoiar os agricultores nesta transição, nomeadamente, em Portugal e nesta cultura estratégica que é o tomate indústria. Temos várias ferramentas – fitofármacos, bioestimulantes, sementes, serviços digitais – e estamos a estudar como combinar estas ferramentas para uma agricultura mais regenerativa”, afirmou.
Gottlieb Basch, investigador do MED-UÉvora, defendeu que os serviços de ecossistemas derivados da agricultura de conservação devem ser remunerados pela sociedade e que é necessário investir na literacia do solo – um organismo vivo – para esclarecer a opinião pública.
Por fim, o projeto B-Rural, apresentado por Rui Almeida, sócio da Consulai, pretende comunicar o que de bom se faz na agricultura, através de campanhas de comunicação assertivas.
O evento contou com a participação do presidente da Companhia das Lezírias, Eduardo Oliveira e Sousa, que encerrou a sessão, seguindo-se um brinde entre os participantes e palavras de agradecimento de Felisbela Torres de Campos, responsável de sustentabilidade da Syngenta em Portugal.